• RPG no Brasil – praticamente um morto-vivo (Parte 1)

    por Nyarlathotep em July 21, 2011

    “(…)precisava tirar um acerto crítico e o máximo de dano. Senão, já era! Tava cheio de penalidade e o próximo turno era do NPC. Se bobear, morria todo mundo. Rolei e pá! Acerto crítico. Faltava rolar os danos. Joguei um por um. Tudo seis! Tinha que ver a cara do Mestre!”

    Até uns 8 anos atrás, era bem comum ouvir esse tipo de diálogo praticamente em qualquer lugar com um grupo de nerds (ou aquilo que rotulam/rotulavam como nerd) adolescentes – mas não só. Típica conversa sem sentido de jogadores de RPG de mesa. Mas é cada vez mais raro ouvir isso. Ainda mais entre aqueles que eram meras crianças no início da última década. Prova disso é o fato que trabalhei por um ano em um colégio entre 2005 e 2006 e não ter visto se quer uma mera montagem de fichas, discussões sem propósito sobre regras na saída do colégio, ou se quer alguém comentando de uma sessão ou outra no laboratório de informática. Ou mendigando impressão de fichas – o que seria bem plausível.

    Isso prova a morte do RPG? Claro que não. É um indício, contudo. Indício bem marcante se levarmos em consideração que, a mais ou menos 10 anos atrás, muita gente matava o tempo conversando sobre RPG nos intervalos, nas saídas do colégio, durante as aulas. Pense: qual foi a última vez que você ouviu algum diálogo bizarro na faculdade, ponto de ônibus, livraria, lanchonete, ou qualquer lugar público onde ‘subir de nível’, ‘ganhar xis pê’, ‘montar personagem’, ‘procurar item’ foram pronunciadas em um contexto que não envolvia os ditos MMOs? O seu grupo de RPG não conta. Especialmente se você tiver mais que 20 anos.

    E os MMOs são justamente outra amostra da possível morte do RPG. É bom lembrarmos que nos últimos 10 anos a Internet de forma geral (incluo aqui também os jogos OnLine de consoles) alterou significativamente a forma de lazer das pessoas. Aqueles que antes poderiam jogar RPGs de mesa ao longo do fim de semana hoje ficam em casa jogando seu MMO favorito, assistindo seus filmes pirateados pela Internet, suas séries favoritas, seus animes favoritos, ficam em redes sociais.

    Ao meu ver, o acesso facilitado a essas novas mídias colaborou, e muito, para o afastamento de possíveis jogadores de RPG dos livros e dados. Isso mostra que a maior parcela de jogadores o eram porque simplesmente não havia “coisa melhor para fazer” numa tediosa tarde de sábado.

    E agora que existem coisas mais interessantes e menos trabalhosas do que uma sessão de RPG, os jogadores em potencial se afastam dessa mídia. Esse afastamento e a preferência por mídias mais ligeiras é reflexo do comportamento geral das pessoas dos anos 2000 para cá. Especialmente daquelas que cresceram com vídeo games modernos e Internet de alta velocidade. Porque o foco de atenção dessas pessoas é disperso e o poder de concentração em uma mesma atividade por horas é quase nula. Ler, imaginar e sentar por 4 horas numa mesa com outras pessoas é algo praticamente impossível.

    Veja bem: o tipo de concentração e atenção exigido para se jogar 10h de WoW é muito diferente daquele exigido para uma sessão de jogos de mesa – e aqui já incluo CCGs, RPGs, tabuleiros. A concentração em um jogo digital é praticamente de apenas consumo de informação. Você realmente interpreta um personagem em um MMO? Sua decisão vai ser realmente crucial para o decorrer da estória e o universo de seu personagem? Além disso, todo o aspecto visual e auditivo já está criado. Você não precisa queimar neurônios usando sua imaginação.

    Um outro aspecto que pode ser observado é que cada vez mais você pode se divertir dentro de casa sem precisar interagir de verdade com outras pessoas. É possível se distrair sem precisar de outras pessoas fisicamente presentes. Não estou dizendo que uma coisa tem substituído a outra de forma satisfatória, mas não é preciso mais telefonar para alguém para matar algumas horas numa tediosa tarde de feriado. E isso vai um pouco contra a cultura do RPG, que envolve a interação entre pessoas num mesmo espaço físico. Okay, é possível jogar RPG via IRC, e-mail, fórum. Mas não é a mesma coisa – especialmente com o fator ATENÇÂO mencionado acima.

    Voltando ao aspecto da atenção: acredito ser muito improvável que um adolescente de hoje, que raramente está com sua atenção focada em uma única coisa, conseguirá ler um livro de regras básicas de RPG até o fim. Se você não tem alguém que leia o livro básico e ensine as regras para outras pessoas, fica impossível montar um grupo. Ainda que alguém leia, essa pessoa tem que explicar para as outras como funciona o básico. Elas têm que montar personagens, o que significa ler, pensar, tomar decisões e fazer conta. E tudo isso com alguma história por trás do personagem. E se bobear, é uma tarde toda só pra isso. “omfg!1!1!!11! tudo isso e ainda não vou jogar?!?!?!? só amanhã? morri! +_+” – pensa o adolescente com foco de atenção 0. Em outras palavras: se o básico já dá trabalho, imagina o resto. E quem leu o livro ainda tem que criar uma estória! Com início, meio, fim e possíveis estratégias para fugas do enredo!

    Supondo que terminem seus personagens, supondo que comecem as sessões de jogo: essas pessoas ainda tem que prestar atenção, sem tagarelar, numa terceira pessoa, com o agravante de terem que mentalizar tudo o que essa pessoa está dizendo para em seguida tomarem alguma decisão. É muita coisa para pessoas que estão se acostumando a terem o foco em 4 coisas ao mesmo tempo – e de forma pouco proveitosa.

    Claro, isso é uma mudança geral do comportamento e do ritmo de vida num todo. Tudo é mais corrido e há uma sobrecarga de informação que ao meu ver leva a uma atenção cada vez mais dispersa. E a sobrecarga de atividades faz com que sobre cada vez menos tempo para as pessoas se dedicarem a atividades como essa – especialmente para adultos. Tem-se que trabalhar, estudar, estudar, trabalhar, estudar, levar uma vida saudável, cuidar da aparência, ter uma vida social, cuidar da casa. Tudo isso em 168 horas semanais. E mesmo quando é possível jogar, é quase impossível manter uma continuidade. É claro que sabíamos (aqueles que foram jogadores na adolescência) que ficaria cada vez mais difícil jogarmos RPG, mas a esse ponto? Não só isso, mas nos tornamos (a princípio) pessoas diferentes ao longo dos anos, e o que antes era um hobby muito bacana e divertido hoje já não satisfaz muitos de nós. E assim, acabamos deixando de lado o RPG. E se os jogadores velhos estão “se aposentando” e a não há interesse da “molecada” para o RPG de mesa, não há renovação de público e consumidores.

    Começo a pensar que o RPG é praticamente algo anacrônico, que não se encaixa mais com tanta perfeição dentro de um mundo cada vez mais acelerado, cada vez mais disperso, cada vez mais exaustante. Obviamente, não é apenas o mundo moderno o único “culpado”. O aspecto cultural tem um grande peso nisso. E o mercado também. Mas isso é papo para outra postagem.

     

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