AVISO: Para ficar uma leitura mais leve, os títulos originais já serão colocados entre parênteses traduzidos, ao invés de ‘original + tradução’. Ex.: Um filme qualquer (Filme para a TV).
Uma coisa ninguém pode negar: as distribuidoras brasileiras de filmes são excelentes no quesito criação de títulos. É uma pena que elas utilizem esse dom “para o mal” e transformam simples traduções em uma invenção de nomes sem sentidos e tolos para os filmes (e às vezes seriados).
É engraçado quando você nota isso. Claro, para a maioria isso passa despercebido pela falta de domínio com a língua estrangeira na qual o filme foi originalmente feito – mas algumas traduções são tão horríveis que até quem não entende nada sabe que aquele título foi, no mínimo, inventado. E como a maior parte dos filmes estrangeiros comercializados no Brasil são de língua inglesa, fica bem óbvio para quem domina um mínimo perceber essas aberrações nos títulos.
Chego a pensar que existem padrões para a nomeação desses títulos de acordo com o gênero. Por exemplo, se é um filme romântico tem-se que necessariamente ter palavras que rementem ao amor. Filmes de ação, ao perigo, adrenalina, violência. Um drama, à dor, solidão, lição de vida. Comédia? “Trocadalhos”, qualquer coisa + “muito louca”, descontrole, falta de senso. Terror ou suspense coloque coisas referentes a demonologia (inferno, mau, diabo, etc), assassinos, maldições, morte, qualquer outra coisa desagradável (que não faça parecer um drama). É uma lógica bem simples, até: passe o gênero do filme pelo título – porque as pessoas são incapazes de compreender sobre o que é um filme pelo desenho da capa.
Querem exemplos? No ramo da comédia nós temos vários bons exemplos disso. Vamos pegar dois bons filmes de humor: Rebobine, por favor – Uma locadora muito louca (Seja gentil, rebobine). Aqui nós teríamos um ótimo título se não tivéssemos o “uma locadora muito louca” – apesar de não ser uma tradução direta, nos tempos do VHS era mais comum você ver o pedido “Rebobine, por favor” do que “Seja gentil, rebobine”. Logo, seria uma tradução fiel com o uso de um termo equivalente da nossa língua. Mas não! Eles tinham que colocar “uma locadora muito louca”, porque senão ninguém ia saber que era uma comédia. Ao menos o filme não chama “Rebobine, por favor – uma loucadora”.
Seguindo com os exemplos de comédia, temos Todo mundo quase morto (Shawn dos Mortos). Aqui temos um outro problema que não mencionei acima, mas que é extremamente comum nas traduções de títulos: a “chupinhação”. Pega-se um filme famoso no gênero e traduz um filme do mesmo gênero com algo parecido – Todo mundo em pànico = Todo mundo quase morto. E aqui temos um outro problema: Shawn of The Dead é uma comédia com base em filmes de zumbi, e logo como não se trata de um filme que faz chacota com o gênero, possui foco em um público que já gosta de filmes de zumbis. Assim, quando um fã lê “Shawn of The Dead” ele já se lembra do filme Dawn of The Dead, filme simbólico do gênero de zumbis. Provavelmente alguém que visse um filme chamado Shawn dos Mortos talvez pudesse fazer associação com “Madrugada dos Mortos” e aí assisti-lo. Mas com o nome Todo mundo quase morto você automaticamente associa com Todo mundo em pãnico e faz uma ligação com a típica comédia de mau gosto norte-americana, que envolve especialmente piadas sobre esperma, mijo, cocô, sexo imbecilizado e outras idiotices do gênero.
E o problema da invenção de títulos em comédia afeta filmes bem mais recentes também. E causa um efeito colateral curioso. Sabem aquele filme Se beber, não case (troacadalho)? Ele, na verdade, chama A Ressaca. E aí que temos um filme que chama A Ressaca, mas que na verdade chama Jacuzzi Máquina do Tempo. Logo, temos um filme que chama A Ressaca que não chama A Ressaca. O que nos leva a concluir que alguém poderia ter feito uma tradução direta, mas preferiu criar um título que explique o enredo: um grupo de amigos sai para uma viagem à Las Vegas afim de fazer uma despedida de solteiro para seu amigo. Já em Las Vegas, na noite da festa, eles enchem a cara e tomam um comprimido sem saber o que é com certeza. No dia seguinte acordam de ressaca e não lembram de nada.
Ironicamente, o título de A Ressaca em inglês explica parte do roteiro: amigos saem em uma viagem para tenta animar um amigo em comum que tentou se matar. Ao chegarem na tal cidade que costumavam ir quando jovens, veem que ela está em decadência. Mas para não perderem a viagem, resolvem encher a cara dentro da jacuzzi do hotel que estão. Só que trata-se de uma jacuzzi máquina do tempo que os transporta de volta aos anos 80 após derramarem uma das bebidas em seu console.
O filme que tem o título direto – e meio vago – em inglês, no Brasil tem um título que explica o enredo. O filme que explica em partes o enredo do filme em inglês, tem um título vago no Brasil. Espantoso.
E isso me lembra outra coisa: passe a ideia do filme e resuma o enredo através do título. Mais a frente voltarei nesse tópico. Continuemos com a “generização” dos títulos!
Terror é outra forma bem simples de exemplificar isso. Cabana do Inferno(Febre da Cabana), Cabana Maldita (A Cabana/Choupana), Joshua – O filho do Mal (Joshua), Colheita Maldita (Filhos do Milho), Cemitério Maldito (Cemitério de Bichos), A Vingança do Demônio (O Balseiro), A Bolha Assassina (A Bolha), Halloween – A noite do Terror (Halloween/Dia Das Bruxas), Christine – O carro Assassino (Christine), Lembrança Macabra (Os Oitos Loucos), Espelhos do Medo (Espelhos), e por aí vai… Sejam péssimos ou não (os filmes), recebem títulos ou subtítulos para completar a ideia de que é um filme A-S-S-U-S-T-A-D-O-R! Dava para listar no mínimo uma centena.
Filmes românticos e de drama. Eu não sou muito fã desses gêneros, especialmente o primeiro, por tanto, é complicado lembrar de cabeça alguns títulos ou até pesquisar. Mas temos: A agenda do meu namorado (Pequeno livro negro), Paixões em Nova Iorque (Calçadas de Nova Iorque), À espera de um milagre (A milha verde [milha = a medida de distância]), Um sonho de liberdade (A Redenção de Shawshank), Conta comigo (O Corpo), Harry & Sally – feitos um para o outro (Harry e Sally) – esse último me lembra uma outra categoria de títulos malfeitos: Nome Original + subtítulo nada a ver. Darei exemplos desse tipo mais a frente.
Como disse, não consigo lembrar de tantos filmes assim desses gêneros, mas comece a perceber que eles, em geral, seguem esse padrão: referências a romantismo e referência a coisas tocantes/sensíveis.
Seguindo com os gêneros, prometo ser o último a mencionar especificamente sobre gêneros, temos os filmes de ação. Aqui, vou relacionar filmes de todos os gêneros, sejam mais científicos ficcionais ou mais policiais/urbanos. Reparem que a fórmula continua – ou explicamos o enredo, ou usamos alguma coisa para dar noção de sequências de tirar o fôlego!
Alien – O oitava passageiro (Alien), Os Infiltrados (O Falecido) – basta ver o filme para entender quem é o falecido da estória, mas não! Tem que colocar algo que explique que o filme envolve pessoas infiltradas em ambos os lados. O Plano Perfeito (O infiltrado), Filhos da Esperança (Crianças da Humanidade), As Duas Faces da Lei (Morte Justa/Assassinato Justo), O Vingador do Futuro (Recordação Completa) – esse cai na categoria da “chupinhação” também, pois veio para cá depois de O Exterminador do Futuro (Exterminador) e com o mesmo ator. Temos muitos, mas muitos outros. Poderia ficar listando mais e mais filmes, contudo, prefiro mostrar outro tipo de tradução de títulos muito comum: a com subtítulos inventados.
Bom, esses subtítulos inventados às vezes passam a ideia do filme, às vezes acrescentam o que talvez era pra ser o nome na distribuidora do Brasil (uma “sub-tradução” pro título original). Por exemplo, Sin City – Cidade do Pecado e Shine – Brilhante, encaixam nesse exemplo: ambos possuem seu título original seguido da tradução. Em alguns casos é notável que essa escolha é feita porque tem-se que atrair o fã da obra original (caso do Sin City) para o filme e o Zé Ninguém que nunca ouviu falar. Em outros, talvez o caso de Shine, o filme fica conhecido pelo seu nome original antes de ter uma distribuição aqui no país, e aí, opta-se por usar o nome original + tradução. O que me intriga é porque não optar simplesmente pela tradução, já que nesses casos elas são fiéis e boas.
Outro tipo comum é a invenção dos subtítulos. Como mencionado no início, Rebobine, por favor, tem um subtítulo adicionado simplesmente pela ação de se adicionar um subtítulo. O que “uma locadora muito louca” acrescenta de positivo ao título do filme aqui no Brasil? Nada. Mais recentemente temos Suckerpunch – Mundo Surreal. Eu não tenho a mínima vontade de ver filmes do Zack Snyder, mas precisava MESMO de acrescentar esse subtítulo? Sucker punch é uma gíria. Que tal procurar essa gíria e ver se existe algo equivalente em nossa língua?
Eu aceito que em alguns casos, como de Snatch, é difícil achar um termo em português. Então, opte pela criação de um outro título, e não Snatch – Porcos e Diamantes. Um bom exemplo disso é Jogos Mortais. Apesar de cair no “colocar coisa que reflita dor/morte/sofrimento no titulo de um filme de horror”, o nome original funciona muito bem em inglês, mas não funcionaria se traduzissem. Explico: Saw pode ser “serrote” ou “observado, visto”. E esse jogo de palavras faz total sentido em inglês, e seria perdido numa tradução. Agora, Rock’n'Rola – A Grande Roubada e Sideways – Entre umas e outras não merecem crédito algum. Arranjassem outro título, por favor. O trocadalho de “roubada” como “assalto” ou “entrar numa roubada” é péssimo, e o segundo nem merece comentário – porque é um filme onde dois amigos viajam pelas vinícolas da Califórnia, acharam por bem fazer uma referência/trocadilho com o tema do filme.
Outro exemplo de títulos inventado, nesse caso em um filme sem um gênero muito definido, é Anti-Herói Americano (Esplendor Americano). Nunca vou entender muito bem esse título, afinal, mesmo que para quem não sabe que o título original faz referência a revista que o protagonista escrevia, é um título muito bacana que reflete com certa ironia o tom do filme.
Eu poderia continuar a falar e listar títulos e fórmulas de traduções sem sentido, mas acho que vale mais o questionamento do porque essa abordagem. É fato que muita gente não tem tanta cultura assim (seja de da classe A+ ou da F-) e precisa ter tudo mastigado, porém, creio que algumas decisões para títulos são péssimas. Será que realmente o grafismo, a capa e o enredo mostrado na contra capa/trailer não são suficientes para mostrar para as pessoas que um filme é uma comédia? Tem-se que colocar um título com “coisa negativa” se for um filme de terror? Esse é o grande problema que tentei passar aqui: a tentativa de se explicar o filme todo com o título. Isso é tão grave, que chega a causar situações muito constrangedoras, como comentei com “The Hangover” e “Hottube Time machine”.
E em termos de franquias isso é pior ainda. Meet the Parents (Conheça os Pais/Sogros) chama Entrando numa Fria aqui. A continuação chama Meet The Fockers (Conheça os Fockers) e aqui Entrando numa Fria maior ainda. E aí que o mais recente da franquia chama Little Fockers (Pequenos Fockers), mas aqui é Entrando numa fria maior ainda com a família. E se surgir um quarto filme? Focker Pets? Vai chamar Entrando numa fria maior ainda com a família e agora com os animais de estimação?
Claro, existem ótimas traduções de títulos em português. Acredito serem a maioria, e espero estar certo. Mas é impressionante ver como existem péssimos hábitos na tradução dos títulos pelas distribuidoras brasileiras. Observo que os bons títulos, em sua maioria, fazem traduções fiéis dos originais, ou tentam algo bem próximo quando não é possível ser fiel. Porque não ter sempre essa abordagem? Por fim, peço que se alguém souber a real razão, comente. Se tiver mais exemplos, diga lá também.
Até mais.
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Muito bom texto, caro lil’ Richards! Ótimos exemplos!
Compartilho de seus sentimentos para com esta maldita fábrica de títulos horríveis.
Abraços